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INVESTIGAÇÃO

Tempo Real: Acompanhe o depoimento do ex-ministro Mandetta na CPI-Covid

Ministro abriu seu depoimento relatando as medidas adotadas em sua gestão para combater a pandemia da Covid-19
04/05/2021 10:37 - Flávio Veras


O ex-ministro da Saúde da gestão Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta (DEM), deu início ao seu depoimento para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado expondo o trabalho dele, à frente do combate à pandemia do novo coronavírus.  

Além disso, Mandetta ainda classificou a doença como algo que não atinge só as pessoas, mas sim todo o escopo da sociedade.  

A pandemia não atinge apenas os cidadãos, mas também os Executivos, os legislativos, o Judiciário, o sistema de saúde, as escolas, a economia, ou seja, toda a sociedade. Por esse motivo, quando estive à frente do ministério, meu objetivo foi a de tentar preparar o país para combater a doença da forma mais eficaz possível para evitar mortes, além das perdas sociais”, explicou.

A primeira pergunta foi elaborada pelo relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB), que perguntou como eram as tratativas com Estados e municípios durante a sua gestão à frente do ministério.

“Toda pactuação é feita de maneira tripartite no SUS. Todos os dias de segunda a segunda, das 7h30 às 9h30, eram feitas todas as pactuações com os governadores e prefeitos”, explicou Mandetta.  

O ex-ministro também foi questionado sobre a possível orientação, que atribuem a ele, sobre os pacientes procurarem médicos apenas quando estiverem em estado de saúde grave.  

Mandetta rebateu a pergunta dizendo que, ela faz parte de uma narrativa mentirosa que tenta emplacar sobre a gestão dele.  

“Nunca afirmei isso, o que ocorre é que, antes do mês de março não tínhamos um único caso de contaminação da doença e, a procura de pacientes era em 99% de outras doenças, como a gripe. Para evitar a transmissão, pois um único paciente em uma sala de espera pode espalhar o vírus, nós orientamos irem até o hospital caso os sintomas da Covid fossem identificados.”

Testagem em massa

O relator da CPI perguntou, há pouco, a questão da testagem em massa, que segundo afirmação dele, nunca ocorreu durante toda a pandemia no país, ao contrário de outras nações.  

O ministro se defendeu dizendo que ele tentou adquirir os exames, porém não havia no mundo existiam esses testes.  

“No entanto, eu encomendei os exames, porém antes dele sair do ministério não havia chegado. Esses testes ficaram disponíveis apenas na gestão do meu sucessor, mas vimos que eles não foram aplicados.”  

Arbitragem

O Ministro foi questionado como foi as tratativas com os Estados para compra de respiradores. Houve uma corrida entre o governo Federal e outros entes federativos para aquisição dos aparelhos. Um dos senadores perguntou sobre o fato de haver essa conversa com outros entes federativos, o porque ocorreu essa disputa.  

“Houve decisões judiciais de um Estado contra o outro para aquisição desses aparelhos. Quando houve isso, o ministério entrou em cena para arbitrar essas aquisições, sendo que esses equipamentos estavam em falta no mundo. No entanto, nós compramos os aparelhos mais baratos possíveis, além de fortalecer a indústria nacional para fabricação dos respiradores.”

Discordânias

O Ministro foi perguntado se ele tinha suas discordâncias com o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) sobre as orientações para conter a onda de contágio da pandemia. Ele afirmou que era muito constrangedor a um ministro da Saúde propor algo e ser desautorizado pelo seu superior, no caso o presidente.

“Eu sou médico, jurei na minha formatura, jurei na minha posse de deputado federal em defender a Constituição Federal. Eu todos os dias tentava passar as orientações para a população, para os entes federativos e para o Planalto. Porém, minhas recomendações não foram seguidas.”

Carta

“Cheguei a escrever uma carta ao presidente e entreguei a ele durante uma reunião com todos os ministros. Eu fui o primeiro a propor uma comissão com todos os ministérios para discutir as ações de combate ao vírus, pois como já disse, ele atinge diversas áreas da sociedade.”

Projeções

“Eu apontei todos os cenários, o mais catastrófico e o menos. No melhor cenário, como se o país fosse uma ilha como a Nova Zelândia, ou tivesse aquela disciplina oriental. No menos pior, a projeção era de 30 a 40 mil mortos. No mais catastrófico, ficou entre 90 a 100 mil. Porém, encomendei ao infectologista, Julio Croda qual seria sua projeção se não fizéssemos todas as medidas possíveis, ele estipulou 200 mil óbitos. Todos os cenários foram entregues ao presidente, porém ele ouvia muitos parlamentares e integrantes do governo que apontavam 2 mil vidas perdidas e acabava sendo convencido por eles.”

Discussões

“Nunca houve uma discussão áspera com o presidente e todas as vezes que eu fazia indicações, ele ouvia e até concordava no momento. Porém, pouco depois fazia tudo ao contrário do que nós da Saúde recomendamos."

Isolamento social

O ex-ministro d afirmou que as políticas de isolamento social eram "adequadas" para aquele momento da pandemia -entre os meses de março e abril. "Adequado por causa do índice de transmissão do vírus. O vírus era muito competente. Nós estamos com um sistema que não tinha naquele momento condição de responder", afirmou o ex-ministro.Todas as recomendações as fiz, com base na ciência, a vida e a proteção. Eu as fiz nos conselhos de ministros e diretamente ao presidente."

Tratamento precoce

“Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido. Quer dizer, ele tinha esse assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não-timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, [Antônio] Barra Torres que disse não."

Em seu depoimento, o ex-ministro disse ainda que Bolsonaro questionava o uso da cloroquina para o tratamento precoce, mesmo sem evidência científica, e que o presidente deveria ter outras fontes de informação, pois o uso do medicamento não era recomendado pelo Ministério da Saúde.

“Me lembro do presidente sempre questionar a questão ligada a cloroquina como a válvula de tratamento precoce, embora sem evidência científica. Eu me lembro do presidente algumas vezes falar que ele adotaria o chamado confinamento vertical, que era também algo que a gente não recomendava."

O ex-ministro foi questionado sobre o porque não recomendar o tratamento precoce, o chamado Kit-Covid, já que o Tamiflu foi a medicação utilizada no combate a epidemia da H1N1. O ministro rebateu dizendo que, falar em tratamento precoce, seria criar "Kit Ilusão".

“Se não existisse a ciência estávamos ainda no bruxismo. O iluminismo trouxe isso, caso contrário a sociedade estava na idade das trevas. No caso do H1N1, o Tamiflu foi comprovado que ele tinha eficácia, ainda bem. A ciência aponta fatos, mesmo que não gostemos do resultado. Portanto, em relação aos outros tratamentos da Covid, apenas a ciência trará luz. Já observamos gente recomendando nebulização de cloroquina, isso é perigosíssimo, portanto a minha base é a ciência e nada mais.” 

Resumo

Os ex-ministros Mandetta e Teich depõem hoje à CPI da Covid, na condição de testemunhas.

Eles devem ser questionados sobre uso de remédios ineficazes contra a Covid pelo governo Bolsonaro.

Octavio Guedes: para senadores, Teich terá a chance de contar a verdade sobre sua saída. Ele deixou o cargo antes de completar um mês.

Pazuello seria ouvido amanhã, mas não deve comparecer. O atual ministro, Marcelo Queiroga, e o diretor da Anvisa falam na quinta.

A CPI investiga ações e omissões do governo federal na pandemia e eventuais desvios de verbas federais enviadas aos estados.