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CRÔNICA

Leia a crônica deste sábado da jornalista Theresa Hilcar, 27 de fevereiro de 2021

Quando cortar o cabelo vira uma epopéia
27/02/2021 00:00 - Theresa Hilcar


O cabelo já estava no meio das costas. Teria quase um metro de comprimento se fosse medido com fita métrica. E pior, estava caindo pela casa toda por excesso de pelo e do elástico que o prendia num rabo de cavalo.

“Está parecendo uma riponga idosa”, brincou a amiga durante o encontro online. Para completar a figura é possível notar alguns fios brancos insistentes ao redor do rosto. Poucos, é verdade. Mas o suficiente para dar aquele ar de “desmazelo”, para usar expressão do inicio do século passado. Ou de “riponga”, termos derivado dos hippies nos anos 70.

Aliás, tenho duas ou três amigas que estão assim: cabeleira longa e branca. Lindas! Ao contrário dela, não tenho vasta cabeleira, só alguns nichos com  fios muito finos, e os brancos ainda são esparsos. O modelito portanto, por mais que me atraia, está fora de questão.

Mas aquele comprimento – que me lembrava personagem de Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de solidão -  já estava me dando problemas, além do estético. Passei então a elaborar alguns planos para resolver a questão capilar assistindo tutoriais na internet. Vários vídeos ensinam o passo a passo para um auto-corte, digamos assim.

No entanto me deparei com uma questão importante: a falta de um item indispensável popularmente chamada de tesoura. Mas não é qualquer uma. Já havia tentado com a da cozinha e não deu certo.  

Nesses tempos de guarda, ir ao comércio comprar seria trabalhoso demais. Sem contar aquele ritual excruciante de ter que responder várias perguntas do vendedor sobre o tipo, tamanho, etecetera e tal. E depois ter que repetir as respostas várias vezes, porque a máscara deixa a minha voz abafada. “O que a senhora disse”? É sempre assim.

Comprar pela internet, no meu caso, não está mais dando certo. Tenho uma máquina de costura portátil (porque não consigo mais usar a agulha) que não tenho ideia de como funciona, um bastão para acumpuntura cujo folheto está em mandarim, e outros objetos inúteis e estranhos, a exemplo de uma máscara de plástico que quase matou de susto o porteiro.  

A ida até o cabelereiro estava fora de questão. A menos que ele me atendesse no estacionamento, pensei.  Mas não arrisquei a pedir. Lá fora o mundo parece tão normal que tenho até receio de passar a impressão errada. Vai saber.

Esta semana, no entanto, me vi forçada a jogar a toalha e vestir a capa. Aquela que a gente usa nos salões de cabelereiros. Pois é, capitulei. O motivo foi o confronto do meu neto, de dois anos e meio, o Luca, que me disse com tom de incômodo: “O cabelo da fofó está entlando na minha boca”, disse enquanto fazia uma careta.  

Sem saída plausível, e sob risco de me transformar num gato ou na personagem do Garcia Marquez, marquei hora no cabelereiro, mas antes certificando-me que o horário estaria tranquilo.

Não satisfeitas com as medidas extremamente cuidadosas do salão, dou pitaco na máscara do PJ, que na minha opinião está muito frouxa. Do alto de sua boniteza e delicadeza, o cabelereiro paranaense, amigo querido, entende a minha aflição e faz o corte em menos de 30 minutos.  

Quando me apresento diante do neto com o corte em dia, ele simplesmente ignora. Dá de ombros à novidade e continua a brincar como se nada houvesse acontecido. Nada para se estranhar.  

Afinal, vem de longe o comportamento dos rapazes que nunca reparam quando uma garota muda o penteado ou cortam o cabelo, mesmo que seja para agradá-los.

Esses meninos...